A Verdade Despida e Crua VOCÊ TEM SEDE DE QUE?

COMO EU SOU DEPOIS DE VOCÊ

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Aos 42 anos meu pai morreu de leucemia. Não deveria ser desse jeito, a história de morte reter mais memórias do que as de vida, mas foi o primeiro choque de uma criança com a impiedosa roleta-russa da existência. A constatação incrédula de que não há leis regendo (muito menos justiça) a ilógica linha do tempo do nosso prazo de validade humano.

De uma forma que só o passar dos anos me fez assimilar a dor, ele já tinha partido com a separação aos meus 5 anos,  e depois por vagar na invisibilidade imprevista de um pai ausente. Talvez o mais doloroso foi ter o perceptivo entendimento infantil de que ele amava minha mãe e mesmo assim, não sabia lidar com a necessidade de escolher mudar. Uma mudança permeada de concessões alternadamente triviais e sérias que a construção de uma família e a vinda dos filhos impõe. Para corações indômitos ou imaturos, um massacre cotidiano no espírito da leveza e liberdade.

Nosso encontro onde perguntaria sobre a complexidade dos  seus sentimentos nunca aconteceu. Nem na minha imaginação, sempre em fuga da auto-piedade. Mas guardei suas palavras finais, como uma sentença de vida: a coisa mais importante do mundo é a humildade. Derramei as lágrimas, que travei para simular esperança, ao fechar a porta do quarto do hospital. De uma triste maneira, sabia que nosso último momento juntos tinha chegado ao fim.

Ainda não sei com o que aprendi mais, se com sua morte ou sua vida. Diante de nossa abreviada convivência, meu pai foi mais lição que exemplo.

Coleciono um patchwork emocional tecido com a memória afetiva materna e amigos que desconheço. Aos olhos familiares e estranhos, usando palavras que tantas vezes escutei, meu pai era festivo, desprendido, divertido, admirado, querido, craque, charmoso, bonito, boníssimo, rodeado de amigos. Dos incontáveis, de festa, bar, bairro, esporte ou areia, poucos se fizeram presente durante sua doença. Mas foi a fase que mais nos uniu, revelando uma genuína síntese do que são laços de família, meu pai sendo cuidado por uns meses na nossa casa, que já tinha ganho outro membro,  com o segundo casamento da minha mãe. Foram férias prolongadas que superam o abismo de crateras emocionais.

Um amigo me disse que uma das coisas que teve e não poderia dar aos seus filhos são os valores que só uma infância de privações dá.  Eu tive uma infância de perda, o que me dotou de um temperamento avesso ao drama e tristeza fácil. Desde cedo, aprendi que coisas ruins acontecem com gente boa e o melhor antídoto é julgar-se feliz, agradecendo o hoje como presente único.

Aprendi que há várias formas de amor e que pessoas amam de diferentes maneiras. E, que não importa a intensidade do amor, é preciso outros sentimentos envolvidos para que duas pessoas permaneçam juntas.

Aprendi que não faz diferença quão luminosa seja sua companhia, a enfermidade espanta as pessoas, como mariposas que perdem o foco de luz. Mas também tem o poder de apertar os laços afetivos.

Aprendi que do caos nascem nossas mais brilhantes estrelas e que a vida precisa tanto da leveza do ar quanto da força da gravidade dos buracos  negros.

Aprendi que orgulho é uma jaula dissimulada e que um dos mais sábios caminhos para crescer e evoluir é se manter humilde.

Aprendi que as circunstâncias são incontroláveis, mas nossas escolhas, mesmo nem sempre nos levando onde queremos chegar, definem muito de quem somos.  São inadiáveis. E é necessário  enfrentá-las.

Aprendi que nosso tempo tem começo, meio e fim, mas as marcas que deixamos nas pessoas nos tornam infinitos.

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6 Commentários

  • Responder
    Carlinha Campos
    13/08/2016 em 15:43

    Um vocabulário de uma sabedoria linda de observar e absorver. Gratidão Ale.

  • Responder
    Aline seeberg arannha
    13/08/2016 em 20:26

    Alessandra, tu és ótima! Tuas palavras emocionam e consegues escrever o q pensamos . Isso é um dom. Gostaria muito q mudasses de profissão… Falo isso há muitos anos. Maravilhoso texto sobre teu pai. Me identifiquei mais do q imaginas. q sejas sempre muito inspirada… Por favor!!

  • Responder
    Ana Julia
    13/08/2016 em 20:33

    Lindo texto!!! Lindas palavras!!! Emocionado ao ler. PARABÉNS!!!

  • Responder
    Fernanda
    14/08/2016 em 9:32

    Lindo texto!!!

  • Responder
    Luana
    15/08/2016 em 8:46

    Maravilhoso! Obrigada por compartilhar sua sensibilidade, vida e aprendizados. Uma feliz semana, cheia de vida e amor.

  • Responder
    Geórgia
    15/08/2016 em 16:17

    ALE, nunca me dei conta de tudo que vc deve ter passado tão pequena… Mas como vc mesma descreveu nesse lindo e emocionante texto, mesmo sem conhece lo, vejo com meus olhos que Tio Alexandre foi uma lição linda para tua vida. És uma pessoa muito humilde e maravilhosa, na qual a gente se inspira diariamente! Parabéns por seres essa super mãe e super mulher! Tudo que vivemos nos transforma, lindo saber tirar o melhor disso… Beijos grandes, Geórgia

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